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Viver com menos

mar 19 / 2017 12:00AM

A expressão menos é mais é antiga, tem até um termo em inglês pra definir a diminuição do consumo: lowsumerism – confere esse vídeo aqui – e você, com certeza, já reparou em todo movimento na direção dessa tendência de comportamento, quer ver?!

A popularização do #DIY, #handmade, #façavocêmesmo, #homemade, o resgate das receitinhas da vovó; movimentos como #lixozero, #slowbeauty, #slowliving, a valorização da experiência em detrimento da posse, o êxodo urbano, bioconstruções, permacultura, o empoderamento como forma de liberdade de escolhas e mais um par de ações que sinalizam para onde estamos indo e onde queremos chegar.

Comigo não sei quando o processo começou, mas foi muito antes de querer colocar em prática a ideia de consumir menos. Creio que veio quando comecei a valorizar alguns objetos específicos – por mais incoerente que possa parecer alguém despertar para a diminuição do consumo valorizando objetos, mas fez todo sentido. Passei a me encantar por fotos e objetos de família, móveis usados e itens com algum valor afetivo ou que tinham uma boa história por trás. Daí em diante os objetos passaram a ter algum sentido, função além da utilidade prática deles, um misto de aconchego, afeto e conforto.

Meu avô era ferreiro, fazia coisas com suas mãos, imagine ver algumas barras de ferro se transformarem num lindo móvel, isso era incrível. Todas as outras coisas, vindas de uma fábrica com condições de trabalho precárias, começaram a não ter esse valor todo pra mim.  Mas esse não foi ainda o meu momento com poucos e bons.

Informação é tudo? Depende do que você entende por isso

Bem antes de chegar o momento de questionar o consumo de fato, houve um processo contrário. Cresci numa cidade de interior onde as pessoas valiam muito pelo que possuíam, mas pra mim objetos eram objetos, eu gostava deles por alguma afinidade específica, algo peculiar meu, e não por sua marca, função social ou preço. Vim aprender o conceito de marca pré-adolescente: mochila da Company, sandália da Kenner, calça da Levi’s, sanduíche Mc Donald’s – antes dos 11 anos eu não sabia o que era isso. No meu colégio adolescentes dirigiam uma Hilux, uma Kawasaki, as meninas voltavam dos EUA com o tradicional moletom Hard Rock Cafe… eu não estava consumida por esse universo, não me fazia falta e nunca foi muito valorizados na minha família, mas essas coisas vão se acumulando no nosso “banco de dados” pessoal.

Mais tarde veio o boom dos blogs: estilo, decoração, maquiagem, marcas, muita tecnologia e novidades de montão. Acesso à informação do mundo todo, e já que eu a tinha, canalizei para desejos de consumo, obviamente. Então que tal uma base gringa, talvez duas, mas tinha que ter uns batonzinhos – e olha que na época eu não usava batons. Sabe aquela frase de merchandising dos programas de quinta: “mas não é só isso”, eram roupas, sapatos, eletrônicos, apetrechos, objetos e mais objetos.

Quem quer um motivo pra consumir sabe, você entra numa farmácia e encontra uma razão pra levar ao menos um saco de algodão. É insano, talvez tenha até algodão em casa, ou não, você sabe que não foi ali com aquele objetivo, mas… alguma voz diz na cabeça: “Não é qualquer algodão, ele tem um formato diferente, promete remover a maquiagem de forma instantânea, a embalagem tem uma cordinha pra guardar como nenhum outro, e ele está com um preço ótimo, e se amanhã já tiver vendido todos? Melhor garantir o meu estoque”, e por fim você sai de lá com dois sacos de algodão e uma sensação de vazio, de que ainda está faltando alguma coisa – deve ser dinheiro na conta, provavelmente, rs.

Minha melhor pior decisão na vida

Mas não vim aqui falar de consumismo desenfreado, o assunto aqui é outro. Tempos passaram com o ritmo daquele jeito, muitas coisinhas, uma vida vazia pacas, poucas realizações de sonhos ou escolhas concretas. Certo dia, vida sedentária de frente à TV a cabo, vendo um programa contando a história de um casal que vendeu tudo, adaptou um carro e foi viajar pelo mundo, na hora me veio um estalo – há alguns meses eu havia ido a Porto Seguro visitar uma amiga, conheci Arraial D’Ajuda e me encantei, mas quem não se encanta por um destino de férias?! Pois bem, meu estalo teve nome e endereço, na hora eu falei: “Arraial D’Ajuda, vamos morar lá!”, eu e meu  companheiro arrumamos a mudança e fomos, assim mesmo, sem muitos detalhamentos.

A vida em Arraial não foi fácil, nosso plano não correu nada bem, mas era tudo tão simples, que por vezes lamento não ter aproveitado melhor aquilo. Lá é um lugar incrível, cheinho de pessoas bacanas, tem todo tipo de diversão durante os sete dias da semana, a sua academia é a praia, é tudo muito perto, tem uma diversidade cultural incrível – lá convivemos diariamente com pessoas dos mais variados estados do Brasil, além de Argentinos, Italianos, Espanhóis, tem gente de todo canto mesmo.

Eu estava em transição, era uma mudança e tanto, uma catarse. Minhas coisas não me serviam mais – entenda servir por adequação, função, sentido ou utilidade. Roupas, acessórios, objetos e eletrônicos todos encaixotados. O detalhe é que a voltagem lá era 220V, e a grande maioria dos meus eletrônicos eram 110V, o resumo disso? Geladeira, maquina de lavar, liquidificador, batedeira, xbox, ferro de passar e até o acendimento automático do fogão não nos serviam mais.

O tempo foi passando e a nossa situação se complicando – havíamos montado uma loja lá, que acabou não dando certo, muito aperto financeiro, pouquíssima vontade de comprar – a não ser um sorvete maravilhoso da gelateria de um italiano. Fiquei naquela rotina por meses sem consumir, nem um pacotinho de algodão, não senti a menor falta, incrível né?! Como alguém pôde viver sem isso? Rs. Passou natal, ano novo e nada, estávamos apertando o cinto, pois as coisas não estavam indo muito bem como idealizado, talvez porque tudo foi muito idealizado e pouco planejado. Lembro que fui comprar alguma coisa cerca de 9 meses depois, alguns dias após o meu aniversário, era um vestido, todo branco e esvoaçante, de uma lojinha que importava coisas da Itália ou França, era meio artesanal, ponta de estoque, devia estar ali há muitos verões – quem trabalha ou já trabalhou em local de temporada, entende bem essa expressão. Comprei e me senti feliz, a sensação era diferente, era algo que estava precisando, pois não aguentava mais os shortinhos jeans e as calças que acabaram virando shorts também.

A estada em Arraial não demorou muito mais tempo, mas nunca mais senti a menor vontade de consumir como antes. Quatro anos depois e o saldo é de algumas poucas aquisições e muito destralhe, precisava me desfazer de muitas daquelas coisas todas, abrir espaço, deixar a vida mais leve e principalmente ter apenas o que coubesse naquela nova perspectiva de estilo de vida que estava nascendo. Uma lição pra vida que essa aventura ensinou: eu não precisava de tudo aquilo, não me traziam a tal “felicidade prometida” nas campanhas publicitárias, ficaram lá, em caixas por meses sem fazer a menor falta.

No processo fiz muitas doações: para amigos, pessoas que prestam ou já prestaram serviços para minha família, entreguei para pessoas levarem para a igreja e sempre que identificava alguém que gostaria de um possível desapego, já ia oferecendo.

Mas como viver com menos?

Viver com menos não tem relação só com comprar ou não, você não precisa fazer voto de pobreza. É preciso fazer escolhas conscientes, dar utilidade nova ao que está encostado e pode ser útil, levar em consideração fatores como durabilidade, procedência, impacto ambiental e questionar se realmente precisa de tudo que você tem, pode até ter uma motivação afetiva com seus pertences, mas é bom saber se eles não estão ali apenas pra preencher algum vazio.

Cada um tem suas afinidades, formas de pensar, se expressar pro mundo, o meu conceito de essencial e importante vai ser diferente do seu, e tá tudo bem, afinal é bacana mostrar pra que veio e qual o seu rumo através das tuas roupas, da tua casa, das tuas escolhas, mas o cuidado é pra não parecer cada vez menos com você e sim com algum modelo irreal que tentaram te vender no último seriado ou blog.




  Por Camila Soares

Comunicóloga e adepta do slow lifestyle. Escreve sobre a estilo de vida, beleza, saúde, marketing, comportamento, empreendedorismo, e mais o que vier, sempre com foco em conteúdo para quem quer um dia a dia mais leve, saudável e contemplativo.🌿 camila@slowlifestyle.com.br

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