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Slow Travel: sobre viajar com delicadeza

set 26 / 2017 12:00AM

Basta um toque no meu Globo Terrestre, ele começa a girar e o encanto se faz: sinto um frisson só em pensar quantas possibilidades, quantas terras, quantos mares, quantos povos e culturas a se conhecer, experiências a se viver, convicções a serem questionadas, certezas a serem destruídas estão contidos naquela esfera. O novo, o diferente, o não sabido, não pensado ou sequer imaginado, sempre exerceu um magnetismo inexplicável sobre mim. E a medida que fui atravessando os oceanos e pisando em terras cada vez mais distantes, senti que fui me tornando uma pessoa melhor ao constatar que o ato de viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza mental.

Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser, que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver

Amyr Klink

Sobre contemplar a beleza ao redor, descansar ‘as vistas’ e sentir o lugar

Viajar trouxe clareza as minhas questões espirituais já que foi em meio a natureza brutal que senti, finalmente, a presença do divino, tantas vezes buscadas inutilmente em templos e igrejas. E, principalmente, o ato de viajar me traz felicidade, faz com que eu me sinta viva, mais que isso, acordada, atenta aos detalhes, me eleva ao sublime, ao encontro do sagrado, à plenitude, enfim. E decidi que enquanto essa paixão fizer meu coração bater mais forte e me trouxer aquele “friozinho na barriga”, serei fiel a ela. Mas nem sempre foi assim.

Reflexões sobre verdadeiras maratonas turísticas

A primeira viagem fora dos limites do meu país se deu nos vizinhos Chile e Argentina. Lembro da expectativa para ver a neve, vulcões, a Cordilheira dos Andes, ouvir um novo idioma, sentir novos aromas e sabores. Sim, vi tudo isso, mas as memórias ficaram meio “borradas” por causa da maneira “Fast Travel” que aconteceram, já que, por medo e insegurança, escolhi viajar numa excursão de uma grande agência. Mas isso não impediu que, anos mais tarde, numa investida mais longe agora, o medo e a insegurança, mais uma vez, me levassem a optar por outra excursão, dessa vez para conhecer a Europa.

Esta experiência sim, foi definitiva para eu entender que não era daquela maneira que queria conhecer o mundo: um número imenso de países em poucos dias, um sobe e desce sem fim do ônibus de turismo, hora para dormir, hora para acordar e despachar a mala, me sentia numa maratona ou com uma agenda a cumprir. Não estou aqui para julgar quem prefere, consciente ou inconscientemente, esse tipo de viagem, seja para “aproveitar ao máximo” o maior número de países possíveis para visitar num tempo mínimo, menos ainda aqueles que nem têm outra opção, já que isso pode, às vezes, envolver dinheiro de uma vida inteira de trabalho e essa ser a melhor, senão a única maneira e/ou oportunidade para fazê-lo (ou não). Apenas decidi buscar algo diferente daquilo para mim, queria liberdade para andar sem rumo, queria memórias fortes, vivas, intensas para estarem sempre comigo a cada volta para casa. Além disso, preciso dizer, não foi tudo em vão porque nem mesmo essa pressa dos meus companheiros de excursão em fotografar e correr para o próximo ponto turístico, essa falta de sincronia, digamos assim, conseguiram abalar meu encanto ao dar de cara, pela primeira vez, com a grandeza da Cordilheira, com os vulcões, a neve, ocorrendo o mesmo na segunda viagem, quando vi Paris que, aliás, continua sendo minha cidade preferida no Mundo (pelo menos até agora (rsrs). E viajar traz consigo um tipo especial de sabedoria se estamos abertos para isso. E eu entendi o sinal, ouvi o chamado e decidi que dali em diante faria diferente. Precisei passar por isso para que a vontade de fazer do meu jeito, no meu ritmo, fosse maior que o medo e a insegurança.

Degustando novos e velhos horizontes

Cena do filme La La Land

Voltei, fiquei, flanei, contemplei e degustei todos os lugares que essas excursões apenas passaram, e muitas outras cidades daqueles países, observando como viviam aqueles povos e, por querer saber mais e mais sobre a visão de mundo daquelas pessoas, sob suas óticas e de forma direta, ou seja, através do diálogo, passei a me interessar por línguas, o que me fez estudar espanhol e exercitá-lo primeiro através de um intercâmbio e depois como viajante independente. E, bingo! Como você aprende sobre a cultura de um povo, suas dores e alegrias, quando fala a mesma língua, quando ouve e entende o relato diretamente de quem está vivendo o que você apenas imagina, leu em algum livro ou ouviu falar!

Outro hábito que deixa a viagem impessoal é hospedar-se sempre em hotéis, principalmente os das grandes redes que são todos exatamente iguais em qualquer lugar do mundo. Quando não há jeito, procuro no máximo, pernoitar numa pequena pousada onde, de preferência, os donos estejam a frente. Nos hostels você tem contato com viajantes do mundo inteiro e faz amigos. Mas é nas casas dos moradores locais, principalmente quando eles se fazem presentes, que estão as melhores opções de imersão. Nunca esqueci as tardes que passei conversando com o porteiro do antigo prédio que tornou-se minha estada durante o intercâmbio em Buenos Aires. Ou do senhor da banca de frutas que dava uma sonoridade toda especial ao meu nome e me guardava os melhores morangos. A jovem do café próximo ao curso que aprendeu rápido que eu gostava do café forte e puro, e brigava com o colega quando ele achava que ela tinha esquecido de me servir o açúcar. Quanta gentileza existe ainda pelo mundo! Até hoje lembro de cada um e de quanto me fizeram sentir especial enquanto fiz parte do cotidiano da cidade.

Sentada em uma praça na Holanda consigo definir o Slow Travel na sua essência. A contemplação dos lugares, e não apenas ver, passar, tirar uma foto e seguir.

Depois que volto de cada país, entram no meu coração para sempre, e fico acompanhado as notícias sobre eles com mais interesse, como as de um parente distante, e pensando como estarão aquelas pessoas. Nesses momentos, frequentemente sou tomada por uma nostalgia, vontade de voltar. Mas a esfera está ali me dizendo que ainda há muito o que ver.

Essa mesma esfera me lembra todos os dias que, embora alguns afirmem o contrário, o mundo continua girando exatamente no mesmo ritmo de sempre, e que a humanidade, felizmente, não tem poder algum sobre isso. Que não temos motivo para ceder à pressa que nos está sendo imposta como “natural” nos novos tempos, muito menos ainda ao ato de viajar que seria, em última instância, a hora de relaxar caso esse aceleramento do tempo fosse de fato real e natural. Não é.

Natural é saber um dia de cada vez e ter consciência que a pressa é uma escolha, não algo inexorável, fatal, inevitável. É tecer as horas com amor e gratidão pelo milagre de cada manhã e não passar por ela como se estivéssemos a bordo de um trem-bala, onde as paisagens (momentos) são apenas borrões incapazes de deixar memórias. Não é isso também, memórias, que nós viajantes buscamos trazer na nossa bagagem? Essas ninguém nos tira, o tempo não corrói, as traças não destroem, e serão para sempre nossa reserva de alegria para os dias difíceis.

Então, senhores passageiros, eu os convido para que na próxima partida, busquem viver a jornada escolhida com liberdade, tempo e principalmente presença. Lembrem-se de contemplar e não apenas ver, ter olhos atentos e curiosos para o novo, como os de uma criança quando vê tudo pela primeira vez, pratiquem delicadeza. Dispam-se das crenças e certezas, sejam leves, sejam leves…

A esfera continua girando e eu sigo viajando, aprendendo, me surpreendendo e sem a menor intenção de parar.

Foto Destacada: Nicolas Prieto – tirada ao atravessar os Andes de avião, da Argentina ao Chile.

Demais fotos e vídeo: acervo pessoal ❤️




  Por Rosana Ollive

Viajante e leitora compulsiva, dividida entre rodar o mundo e degustar vinhos, livros, amores e amigos na minha varanda.

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Comentários (14)

 Elisangela  26 de setembro de 2017

Fantástico 👏👏👏

Responder
 Rosana Ollive  28 de setembro de 2017

Obrigada, Elisangela. Continue nos seguindo porque coisas boas estão por vir. Bjs!

Responder
 Paula Pedreira  26 de setembro de 2017

Amei! Cada palavra escrita, cada emoção vivida me fez querer e almejar estar nesses lugares.
Ro, amiga linda com alma de viajente do mundo suas vivências são uma inspiração!
Paulinha de Xampu
FSA/ BA

Responder
 Rosana Ollive  28 de setembro de 2017

Maravilha, Paulinha.
Ser livre as vezes implica solidão também. Mas prefiro pagar o preço porque a recompensa que vem de momentos como esse relatado acima compensa. Como compensa! Bjs!

Responder
 Marcos Vilela  26 de setembro de 2017

Fantástica a expressão do sentimento puro e verdadeiro que o texto reflete ao coração!
Imagino a troca de experiencia, realmente, viajar é inundar a alma de prazer e de leveza!

“Pior que não terminar uma viagem, é nunca partir”
Amyr Klink

Belo texto!

Responder
 Rosana Ollive  28 de setembro de 2017

Obrigada, Marcos.
Suas palavras me estimulam a seguir narrando passagens como essas nas minhas andanças pelo mundo.
Continue nos seguindo.
Bjs

Responder
 Gina Maria Silva Aleixo  27 de setembro de 2017

Caaraambaa me emocionei… pá caralhoo!! Inveja branca!! Quando crescer, quero ser igual a você!!
👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏 para você!! Mulher retada, 💪💪💪💪💪💪💪💪💪💪💪💪💪💪💪 Sai se eu pudesse e meu
dinheiro desse!! Vá em frente… 🙏🙏🙏🙏🙏 seja você… continue realizando sonhos… eu fico aqui torcendo muito muito por você… quem sabe um dia eu tenha a honra e o prazer, de viajar com você!! 👊👊👊👊👊👊👊👊👊 Que venham mais é mais viagens…!!
Parabéns por ser essa mulher retada, dona da própria vida!! Pa-ra-bééés!!
Beijos!!

Responder
 Rosana Ollive  28 de setembro de 2017

Obrigada, Gina.
Muito feliz com suas palavras. Vamos sim fazer essa viagem juntas. Até lá, nos acompanhe por aqui. Bjs!

Responder
 Alcenita Oliveira Freitas  28 de setembro de 2017

Rosana suas palavras me encheram de emoção e mais vontade de fazer minha próxima vaigem.,
Depois desse lindo relato seu pude compreender melhor sua eterna necessidade de viajar.
Adorei as citações feitas , os detalhes descritos e toda emoção que você passou sobre suas viajem.
Continue sempre assim.
Um abraço , espero te encontrar novamente um dia numa dessas viagens que você faz.

Responder
 Flávia Leal Oliveira  28 de setembro de 2017

Sou muito feliz e orgulhosa de ter uma mãe tão corajosa, aprendo muito com você. Ficou lindo o texto, mais você impossível, te amo muito, você vai longe!

Responder
 MARINEIDE MIRANDA SILVA DE OLIVEIRA  2 de outubro de 2017

Rosana,
relato gostoso e recheado de possibilidades. Cada um encontra suas verdades a seu modo e fico feliz em saber que está buscando as suas da forma que sonhou.
Mais viagens, mais realizações, mais alegrias e buscas interiores.
Carinhozões,

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 Nilton Xampu  2 de outubro de 2017

Excelente Rosa…
Este texto é um incentivo maravilhoso principalmente para quem gosta de viajar…
Preciso viajar mais.

Responder
 Erika Samile  4 de outubro de 2017

Que maravilhosoooo!!! Cada experiência descrita por você nos fazer sentir a.vontade enorme de descobrir o mundo!! Fantástica a sua experiência de viagens! Amiga amada você nos inspira muito!! Você para mim é uma cidadã do MUNDO!!!!
Erika Samile

Responder
 Erika Samile  4 de outubro de 2017

Que maravilhosoooo!!! Cada experiência descrita por você nos fazer sentir a.vontade enorme de descobrir o mundo!! Fantástica a sua experiência de viagens! Amiga amada você nos inspira muito!! Você para mim é uma cidadã do MUNDO!!!!
Erika

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