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Slow marketing: uma nova forma de empreender

jun 14 / 2017 12:00AM

Quando iniciei a graduação em Comunicação Social com Habilitação em Relações Públicas e Ênfase em Marketing tive um conflito logo no primeiro semestre, a matéria era gestão, não vou me lembrar especificamente do que, e ali estava eu aprendendo todo o processo e esforço feito para que no final das contas uma empresa/instituição conseguisse concretizar uma, ou melhor, várias vendas, seja de produtos, conceitos ou serviços. O meu choque foi com relação à minúcia do negócio, o objetivo em si do marketing de despertar interesse para assegurar a sua própria existência. No final das contas eu estava estudando para cooptar/aliciar pessoas ao consumo, utilizando de cores, cheiros, texturas, sons, frases de efeitos em estratégias… Seu sistema sensorial seria aguçado por ações planejadas por mim e você persuadido a fazer o que no final das contas é o objetivo da instituição.

Essa orquestra tão calculada me deixou em choque, não parecia algo honesto, afinal a sua decisão de compra não seria algo obrigatoriamente racional, embora você tivesse livre arbítrio para tal, mas a verdade é que a maioria das pessoas não sabe que todos os atos são calculados para convencer, e isso me pareceu um tanto injusto. Você estava no jogo, mas  não sabia as regras dele.

Resumindo a história, não consegui me colocar no mercado mesmo anos depois desse primeiro choque, já graduada e carregando o estigma de bacharel em ser uma verdadeira ‘aliciadora’. Eu estava ali para levar na conversa, tapear, não havia transparência. O sorriso largo da vendedora que eu possivelmente treinaria, na verdade não era honesto para seus clientes, ela apenas havia sido cuidadosamente selecionada com sua natural simpatia para ocupar aquele posto, por justamente possuir aquela facilidade em sorrir aleatoriamente e ser simpática, para trazer simpatia à marca. Eu criaria ouvidorias para que as pessoas desabafassem, não necessariamente o problema delas seria resolvido, isso ia depender muito da empresa em que eu me colocasse.

Então, depois de muito conflito, resolvi tratar o marketing de forma justa e o movimento slow que minha vida já ganhava em alguns aspectos, antes mesmo de notar e ter consciência, me ajudou muito com isso. Resolvi encarar o marketing de frente e aplicar a ele alguns conceitos do movimento slow. Além do mais, trouxe mais clareza à comunicação e resolvi atender uma demanda atual do consumidor: informação, mas não qualquer uma, a mais real e honesta informação que eu pudesse oferecer a ele, para que sem pressa ou pressão resolvesse optar por comprar ou não aquele produto, serviço ou conceito que eu estava lhe ofertando. Isso me trouxe bastante alívio, daí resolvi analisar algumas práticas legais para o Slow Marketing que começaria a aplicar, um esforço focado na transparência, informação, afinidade e empatia.

Depois de uma análise, ainda superficial, resolvi compartilhar algumas dicas de como manter a decência e ainda assim utilizar o esforço de marketing para vender bem o seu negócio:

Agregue valores e conceitos à sua marca e compartilhe

Se ela é eco, sustentável, humanizada, orgânica, artesanal… comunique isso ao público, mas seja honesto nessa colocação, não use de termos ou expressões para se beneficiar de uma tendência se isso realmente não se aplica à sua empresa, por favor, não faça greenwashing – apropriação indevida de conceitos ambientalistas para tentar se beneficiar da imagem positiva que podem trazer às suas organizações, divulgando informações falsas ou confusas que levem o consumidor a acreditar que se tratam de produtos/empresas/marcas que são ecológicos/naturais/sustentáveis.

Símbolos

Se acha que tem algum conceito bacana, que mereça inclusive um selo de decência e aprovação de suas boas práticas, pode conferir o Guia Slow Living, uma revista/guia – tipo aquelas antigas telelistas de páginas amarelas,  só que muito mais bonito, com matérias, entrevistas e recheado de empresas e projetos daqueles de dar orgulho de ver – com negócios criativos, pequenos e grandiosos, sustentáveis, feitos à mão, como amor, artesanais, orgânicos, vindos de agricultura familiar…

Pratique o rastreio dos recursos utilizados por seus produtos/serviços

Marketing não é só o ato de se vender, envolve inúmeras ações desde a concepção, confecção, distribuição, promoção e mais algumas outras coisas que não vou me lembrar agora, incluindo inclusive as etapas da cadeira de produção, por isso, preocupe-se em ter uma cadeia de dar orgulho à sua empresa, que traga a consciência limpa de saber que em nenhum momento do processo você está contribuindo para o trabalho escravo, a escassez de algum recurso natural, ou práticas ilícitas e ilegais.

Falando de rastreio, é importante reforçar a relevância dos recursos humanos e o motivo é simples, não tem como ser responsável se, na prática, as pessoas que trabalham para que seu produto chegue ao consumidor não estão felizes, trabalham em condições e jornadas desumanas, sofrem pressões ou assédios e não são reconhecidas pela contribuição para o produto final. Afinal, quem não gosta de ser reconhecido?

Na contramão do não reconhecimento o movimento Fashion Revolution faz você refletir sobre tudo isso que foi dito acima, com a pergunta: “quem faz minhas roupas?” – assim cria identificação, empatia, podia ser você por trás daquilo, seu tio, sua avó, isso ajuda também a fazer o consumidor entender o motivo do preço final, saber por quantas mãos aquilo passou e quanto tempo demorou pra ser desenvolvido e se essas pessoas foram remuneradas de forma justa. Tudo isso agrega um valor imenso, e tudo que traz credibilidade deve ser compartilhado, pois influencia outras empresas a fazerem o mesmo, faz o consumidor valorizar certos passos que ele nem conhecia da produção.

Conte sua história

As histórias são ótimas ferramentas de venda de conceito, pois geram afinidades com seus consumidores, trazendo proximidade e intimidade com a sua marca. Com elas você gera vínculos – é bacana consumir de quem tem alguma história que se encontra com a nossa, traz ao produto/serviço um valor a mais, gera identidade e carrega um conceito. Se seu produto foi feito no interior da Bahia e, por acaso, você acabou de alcançar alguém justamente daquela cidade, isso pode fazer com que ela tenha orgulho do seu sucesso. Imagine ainda se você conta sua história pra alguém que já morou em sua cidade, tem ótimas memórias de lá, mas há muitos anos não tem a possibilidade de estar exatamente onde você está, de sentir os aromas da sua terra, os cheiros da sua infância?! Olha quanta empatia você vai gerar só pelo fato de estar contando a sua origem.

Não se aproprie do conceito: “não se vende produto e sim solução” pra criar necessidades que as pessoa não tenham de fato

Embora o marketing se vanglorie de não criar necessidades, um fato, que a simpatia por alguns conceitos minimalistas me trouxe, é que realmente não precisamos de todas as coisas que resolvemos consumir durante anos de nossas vidas, pode apostar que algum método torto foi aplicado no processo e tudo o que adquiriu não vai trazer a “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”.

Sempre aparecem soluções milagrosas para “problemas” que você nunca nem havia se atentado antes, e logo elas se transformam em consumo de uma infinidade de quinquilharias.

Pois bem, se o marketing não cria necessidades, como essas coisas vieram parar em nossas casas e pareciam tão essenciais em uma velocidade maior do que a gente de fato poderia consumir?! E mais ainda, será que o marketing não ajudou a criar uma inversão de valores na pirâmide de Maslow – divisão hierárquica do psicólogo americano Abraham Maslow, utilizada por profissionais de marketing e publicidade, que classifica as necessidades humanas por grau de importância, onde as de nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das de nível mais alto.

Aqui embaixo a Pirâmide das Necessidades de Maslow, embora eu não defenda completamente a hierarquização das necessidades humanas, não tem como negar que algumas delas acabam tendo uma relevância maior de fato:

Pirâmide das Necessidades – Maslow

Afinal, quantas pessoas você conhece que não honram seus compromissos com necessidades básicas para desfrutar de alguma tendência que agregue valor ao ego ou status social?! Vamos refletir sobre?

Um exemplo da má utilização da comunicação para gerar inversão de valores é a clássica frase utilizada por revistas de moda e publicidade: “itens que você tem que ter”. Trazer a sensação de exclusão e não pertencimento para levar a pessoa ao consumo não é legal, não gera uma compra com efeito satisfatório e leva a uma venda com um peso negativo.

Busque realmente conhecer o seu público

Do que ele gosta? Como ele pensa sobre assuntos da atualidade? Difícil agradar todas as pessoas e cada vez mais a segmentação de mercado está trazendo a possibilidade de você fazer para quem realmente quer atender e agradar, mas para acontecer isso você precisa realmente conhecer melhor seu público. Saber se é feminista, vegano, budista, quais suas ideologias e posições políticas…, saber quais valores são importantes pode ajudar a marca a ver quem está alinhado ou não com a proposta dela e como essas pessoas, que de fato estão alinhadas, gostariam de ver os produtos que você vende e como preferem ser abordadas por você.

Forneça informação e alimente conteúdo

Julgo uma questão um pouco perigoso, mas necessária, então o faça dentro das suas condições. Estamos vivendo em uma época que se tem muito conteúdo de qualidade gratuito, isso é ótimo, mas pode gerar uma demanda incontrolável, principalmente para pequenos empreendedores. É aquela coisa, você vai gerir uma empresa, algumas vezes até produzir, além de mais uma infinidade de tarefas e ainda vai gerar conteúdo gratuito? Dependendo do tamanho de sua empresa e do volume de conteúdo que venha trazer, isso pode acabar tomando muito tempo e inviabilizando o seu negócio. Por outro lado é através desse conteúdo que vai gerar afinidade com quem se comunica, e mais, é através dele que, muitas vezes, vai literalmente formar esse público – entenda por formar agregar conceitos e trazer reflexões que antes ele não tinha e que podem contribuir para que passem a ser seus consumidores e de marcas similares, o que no fundo é bacana.

É importante ressaltar que o compartilhamento de informação precisa ser feito com responsabilidade – quando a informação difundida não é duvidosa ou tendenciosa e sim com objeto de esclarecer, trazer questionamentos de estilo de vida, etc.

As melhores chamadas de impacto serão as mais verdadeiras

Quem nunca caiu em uma loja ou site com uma chamada irresistível e quando clicou a decepção foi imediata? A empresa até conseguiu chamar sua atenção, mas utilizou uma comunicacao inverídica, o que para mim é uma comunicação violenta. Eu não consumo em sites do gênero e sou a parcela da população que contribui para que as taxas de rejeição desses tipos de páginas sejam altas, saindo imediatamente de lá.

A mesma regra acima se aplica pra sites com inúmeros e enormes pop ups que saltam bem no meio da notícia e que, em muitos casos, acabam tornando impossível conseguir fechar aquele maldito banner e continuar lendo. Isso é chato, incomoda, é ultrapassado, agressivo, pode até trazer resultados, mas não para quem está alinhado a uma proposta slow de consumo. Observem, não estou condenando o uso de banner, o cadastramento e captura de clientes, ou até o direcionamento para conteúdos relevantes, mas sei lá, usa a barra lateral, põe no início do site ou em qualquer outro lugar lá fixo, bonitinho e tal, não agride o se cliente com algo que, literalmente, lhe salta aos olhos, se ele estiver realmente interessado ele vai encontrar no seu site, e se ele não estiver, melhor pra você, afinal o marketing cada vez mais se baseia no refinamento do público alvo, na segmentação da segmentação, assim não corre o risco de encher o saco de uma infinidade de pessoas que não se interessam por aquele conteúdo.

Slow marketing para blogs e sites

Pode parecer que foquei basicamente em produtos e serviços, mas essas colocações valem pra todos os casos, inclusive negócios que vivem de conteúdo como os blogs e sites que, no final das contas, acabam prestando um tipo de serviço, porém com algumas peculiaridades. Os que possuem objetivos financeiros, desejam atrair anúncios, projetos e consultorias, não há nada de errado nisso, porém é essencial utilizar boas práticas na hora de escolher seus anunciantes e parceiros, mas esse é assunto pra outro artigo sobre slow marketing voltado para sites de conteúdo. Você tem interesse em textos assim por aqui?




  Por Camila Soares

Comunicóloga e adepta do slow lifestyle. Escreve sobre a estilo de vida, beleza, saúde, marketing, comportamento, empreendedorismo, e mais o que vier, sempre com foco em conteúdo para quem quer um dia a dia mais leve, saudável e contemplativo.🌿 camila@slowlifestyle.com.br

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Comentários (6)

 Verônica Motti  4 de dezembro de 2017

Ei Camila! Adorei este texto. Tinha salvo pra ler quando tivesse um tempo pra ler tudo com calma e atenção. Sou publicitária e pretendo aplicar o Slow Marketing cada vez mais na forma como eu trabalho. Queria saber como você vem fazendo isso e qual a melhor maneira de mostrar ao cliente que este tipo de comunicação/estratégia é válido, podendo ser muito mais verdadeiro e eficaz.

Obrigada! 🙂

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 Camila Soares  4 de dezembro de 2017

Olá Verônica, que bom ler seu retorno. Esse texto é muito especial pra mim! Um estratégia boa é buscar se cercar de clientes cada vez mais alinhados com propostas verdadeiras, pessoas e empresas que já se sentiram enganadas, ou que até possuem uma falta de crença no marketing por achar que este é um meio sempre de meias verdades e estímulo ao consumo. Não sei como você trabalha, por isso não sei se você tem a oportunidade de escolher os seus clientes, mas isso é muito importante e acredito que a publicidade tem muito a ganhar segmentando o perfil de cliente que trabalha, pq nós não temos como conhecer todo tipo de cliente a fundo pra promover bem. Quando o cliente já está alinhado com uma linha mais verdadeira, sem pressa e sabe da importância da construção de uma imagem como um processo que pode demorar algum tempo, fica muito mais fácil vender pra ele. E no final das contas é importante ser sempre aberta com seu cliente, mesmo que saiba q existe a possibilidade dele não apostar pq espera uma estratégia mais imediatista. De resto eu uso de boas imagens, textos educativos e informativos, parcerias estratégicas e mais tantos outros recursos convencionais só que alinhados a este conceito todo aí.

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 Alexsandra Lopes  21 de agosto de 2018

Olá 🙂

Amei seu texto. Sou Designer de Interiores, quase me formando. Eu tive algo parecido com isso que você descreveu no começo do seu curso. Eu me achava deslocada no meio de tanta coisa de saltarem os olhos no meu curso. Desde que descobri o Minimalismo, tenho buscado muito sobre, e estou amando cada vez mais. Eu havia começado meu blog há pouco tempo, e comecei a pesquisar sobre marketing digital. De novo me senti deslocada. Eu pensei: poxa, será que não existe uma forma de fazer isso sem ter que tá incomodando, ou tentando parecer uma coisa que não é? Procurando mais sobre minimalismo, descobri isso no âmbito profissional, e caí no Slow Marketing. Busquei sobre e caí aqui. Eu li e pensei: É ISSO!

Já virei leitora.

Abraços.

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 Camila Soares  10 de setembro de 2018

Oi, Ale, então não foi em vão que caiu aqui. Seja muito bem vinda. Em breve virão outros textos de slow marketing e outros temas afins ao empreendedorismo slow, vida simples e o minimalismo. Um abraço! 🙂

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 Cristina  24 de agosto de 2018

Que bom encontrar esse texto !
Eu também estou buscando viver de um modo mais slow e agora que sou Micro Empreendedora Individual quero que a minha empresa seja slow também.
Eu não uso mais o facebook nem o Instagram e estava ficando triste em imaginar que teria que obrigatoriamente refazer minhas contas em redes sociais apenas para divulgar o meu negócio. Quero uma estratégia de marketing que combine mais com o que eu acredito. Bom saber que isso é possível. Deseje-me sorte ! 😀

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 Camila Soares  9 de setembro de 2018

Boa sorte nessa jornada pelo empreendedorismo slow. Depois compartilha com a gente como está sendo a jornada offline. Sucesso! 😉

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